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Nada é tão sólido que não possa derreter. Eu realmente gostava de ser assim, tão fria quanto tampa de privada no inverno e tão amarga quanto xarope ruim - aqueles que não têm gosto de tutti fruit. Me orgulhava de não responder o “boa tarde” do vizinho e nem sorrir para a senhora que trabalha na cantinha do colégio, afinal, ela sempre me dava o troco errado! Depois de tanto ouvir por aí que ser ignorante era legal, passei a fazê-lo cada vez mais. Eu, que já era destaque na insensibilidade, completei mestrado e doutorado na arte do eu-não-me-importo e nada me deixava tão satisfeita quanto a sensação de ter um coração de gelo, daqueles indissolúveis e tão frios que chegam a queimar. Antipática, metida e insuportável são apenas alguns dos adjetivos que faziam meu nome seja lá onde fosse; cansei de ouvir “como você é estressada” vindo de pessoas que nem ao menos sabiam que toda aquela arrogância não passava de insegurança - e ciúmes, solidão, saudades, angustia, enfim. Se existiu alguma criança mais amarga que eu, não sei. Mas posso garantir que era realmente impressionante para muitos o fato que uma pequenina viver encapsulada em amargura e desprezo. Na certa suspeitavam de algum distúrbio psicológico ou algo do tipo! E até há pouco tempo atrás eu gostava disso, desse meu jeito estupidamente ríspido e grosseiro, mesmo que isso me afastasse de todos e me fizesse viver uma vida vazia. Eu simplesmente adorava o fato de não me emocionar nem mesmo com a morte, não ter problemas com esse tal de amor e ter essa postura de indestrutível e inabalável, talvez até um pouco perigosa…E um dia desses me peguei chorando. E não foi apenas essa vez, venho derramando lágrimas há muito tempo! Pensei na hipótese da TPM - hormônios à flor da pele e um descontrole emocional excessivo. Mas não, não era isso. Era a vida, que se revoltou contra mim e decidiu estapear minha cara dizendo “larga dessa frieza banal”! Cada segundo tem sua emoção, seu sentimento e me poupar de vivê-los intensamente não me livra de mal algum. Continuarei sofrendo, mesmo que eu não demonstre, mesmo que tente me enganar. Hoje vejo meu coraçãozinho - cansado de tanto ser reprimido - se reconstruindo e fico feliz. Feliz por amar e ser amada, por me permitir gargalhar escandalosamente até do vento, por deixar as lágrimas rolarem seja qual for o motivo e a qualquer momento! Sair por aí gritando “eu amo isso, odeio aquilo, choro por tal pessoa, me emociono com aquele lá”…O alívio da minha alma por não precisar mais sufocar todos esses sentimentos por trás do falso eu-sou-fria é como respirar tudo e soltar o ar pela boca aos pouquinhos. O coração de pedra se tornou manteiga derretida. A falsa muralha desmoronou. O gelo foi tão aquecido que se tronou vapor. Tudo mudou mas, quer saber? Estou muito melhor assim.
— Porque nada é tão sólido que não possa derreter (pseudo-coracao)

(via game--over-bitch)

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game--over-bitch: fallow friday >.<

Muito obrigada *—-*

Ask respondida em June

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